Texto anppom 2023
A partir da ideia não realizada no congresso de Pelotas ano passado, foi escrita a comunicação para a Anppom deste ano.
Texto completado hoje.
Richard Wagner em Paris (1839-1842): jornalismo e processos criativos
MODALIDADE: COMUNICAÇÃO
SUBÁREA: Musicologia
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Resumo. Richard Wagner (1813-1883) explorou de diversos modos a estrutura da esfera pública de seu tempo, especialmente por meio da escritura de textos para jornais. De seus primeiros dias como crítico da ópera alemã, passando por suas estadas em Paris, seu projeto do Anel, até a autocelebração no boletim mensal Bayreuther Blatter, temos estratégias simultâneas de construção de projetos artísticos e formação de uma comunidade recepcional.
Nesta comunicação, são repassados momentos e funções dos usos do polemismo publicista de Richard Wagner, com especial atenção aos anos em Paris (1839-1842). Durante sua estadia na capital francesa, com as restrições econômicas e sociais que inviabilizam sua disposição de “vencer em Paris”, Wagner passa a dividir-se entre tradições culturais e modelos estéticos e de produção em entrechoque. Foi nos artigos para jornais que ele experimentou ideias, gêneros e soluções para seus impasses artísticos e existenciais. Como um diário íntimo publicizado, tais artigos jornalísticos são ao mesmo tempo processos criativos e esboços de materiais que mais tarde seriam elaborados em sua carreira.
Palavras-chave. Richard Wagner, Jornalismo, Processos Criativos
Title. Richard Wagner in Paris (1839-1842): newspapers and creative processes
Abstract. Richard Wagner (1813-1883) explored the structure of the public sphere of his time in different ways, especially through the writing of texts for newspapers. From his early days as a German opera critic, through his stays in Paris, his Ring project, to his self-celebration in the monthly Bayreuther Blatter newsletter, we have strategies both for building artistic projects and forming a receptional community.
In this paper, moments and functions of the uses of Richard Wagner's publicist polemics are reviewed, with special attention to the years in Paris (1839-1842). During his stay in the French capital, with the economic and social restrictions that made his willingness to “win over Paris” unfeasible, Wagner began to divide himself between cultural traditions and clashing aesthetic and production models. It was in the newspaper articles that he experimented with ideas, genres and solutions to his artistic and existential impasses. Like a publicized intimate diary, such journalistic articles are at the same time creative processes and sketches of materials that would later be elaborated in his career.
Keywords. Richard Wagner, Journalism, Creative Processes
Contextos[1]
A primeira estadia de Richard Wagner e sua família em Paris, entre setembro de 1839 e abril de 1842, em sua imediata apreensão apresenta a lenda heroica do artista faminto lutando contra o sistema. Tal é a narrativa dominante da biografia de Wagner, Mein Leben, ditada em 1865 e publicada a parte inicial em 1870, que serviu de base tanto para posteriores reelaborações apologéticas quanto para inversões valorativas[2].
Durante o período, tal heroísmo foi ainda veiculado em série de textos publicados em jornais franceses e alemães, ampliando a ficcionalização das difíceis condições de Wagner à época: nestes e em outros textos há um diálogo entre as experiências de um estrangeiro em ambiente cosmopolita e projetos artísticos reformadores[3].
A partir de suas funções de direção artística de teatros em Würzburg (1833), Magdeburg (1834), Bad-Lauchstädt (1834-1835), Königsberg (1836-1837), Riga (1837-1839), Wagner defrontou-se não apenas com repertórios de tradições diversas (francesa, italiana, alemã), como também com questões de gestão e política de equipamentos culturais. Para tanto, Wagner formulou propostas de reformas das casas de ópera, objetivando a formação de artistas, gestores e público alemães dentro de horizontes mais universalistas[4].
Assim, vencer em Paris, a ida para a capital francesa não se reduz a um projeto autoreferencial, como recentemente defendeu Nicholas Vazsonyi:
Dinheiro e lucro foram os principais motivadores da viagem de Wagner a Paris. Embora o momento imediato para sua fuga de Riga tenha sido uma resposta à crescente pressão de seus numerosos credores, ele esperava há muito tempo que em Paris conseguiria sua grande chance como compositor, tornar-se “rico e famoso” e “não mais ser um filisteu alemão”, sonhos que ele anunciou descaradamente a seu amigo Theodor Apel já em 1834 (VAZSONYI, 2010, p. 24. Grifos nossos).
O fracasso econômico e artístico da estadia em Paris, porém, indica-nos acessos a outros modos de se compreender o trabalho do compositor, seu processo criativo[5].
Escrevendo muito
Diante das pressões imediatas de subsistência, Wagner passa a escrever textos para jornais franceses e alemães. Não era nova essa atividade para Wagner: desde ao menos 1834 ele havia se valido da imprensa ou de programas/notas de concertos para divulgar suas ideias, interagir com públicos cada vez maiores e aumentar seu prestígio social. Em Paris, temos uma intensificação e diversificação dessa prática.
Para uma visão abrangente dos textos escritos e publicados por Wagner em Paris, veja-se a lista abaixo:
Figura 1 – Lista cronológica de publicações em jornais entre 1839 e 1842
Fonte: ALLEN & SKELTON, 1973, p. 196-197.
A partir dessa lista, é possível distinguir algumas orientações nessa produção escritural:
a- textos de mediação e contraposição culturais. Wagner escrevia em alemão e era traduzido pelos editores para o francês. Com isso, ele dispunha de pelo menos dois produtos a cada redação, que eram publicados tanto na França, quanto na Alemanha. Nesse trabalho de correspondente alemão em França, Wagner inicialmente transmitia para os leitores impressões quanto à vida cultural (estreias de espetáculos, etc.) mescladas com seu cotidiano em Paris. Após 1841, aprofunda-se uma abordagem mais sombria, que demonstra a cisão entre o compositor e a cidade, tornada o túmulo das ambições de artistas. Enquanto para os franceses representa-se esse “autor defunto” e suas obras nunca apreciadas em “Caprices esthetiques: Extraits du journal d'un musicien defunt. Le musicien et la publicité”, Wagner passa relatar apenas em alemão, na série de nove textos “Pariser Bericht fur die Dresdener Abendzeitung," a contraposição entre o capitalismo nas artes em Paris e o idealismo estético do “bom alemão”. De qualquer modo, a perspectiva dos textos é do impacto da emergente cultura de massas sobre o trabalho do compositor que, a partir de agora, tem de se ocupar não somente com sua imaginação e obras: precisa também se inserir nas cadeias de produção e circulação de produtos[6];
b-textos de estudo: são análises de obras encenadas em Paris, com discussões sobre sua dramaturgia e interpretação, como “Über Meyerbeers ‘Huguenotten’”, de 1839, “Le Freischütz”, de 1841, “La Reine de Chypre d'Halévy”, de 1842. O interessante desses textos é o fato de um compositor-dramaturgo explorar no papel os limites e as possibilidades das obras que examina em um momento em que ele próprio encontra-se afastado completamente das salas de ensaio;
c- textos conceptuais: investigações detidas em torno de temas de dramaturgia musical em sua historicidade, como “De la musique allemand” e “Du metier de virtuose et de l'independance des compositeurs" , ambos de 1840, e, especialmente, “De l'ouverture", de 1841. Nestes textos, há a tentativa de se discutir as principais tradições operísticas europeias para se constituir uma rede de distinções e opções, de forma a sinalizar decisões criativas para uma realização dramático-musical pretensamente mais completa e eficiente em sua construção e efeitos.
d- experimentos estético-ficcionais, como "Une visite a Beethoven: Épisode de la vie d'un musicien allemand”, de 1840, e sua continuação “Um musicien étranger à Paris”, de 1841, e "Une soirée heureuse", de 1841, retomando ideias e textos de E.T.A. Hoffmann (1776-1822). Aqui temos entremeados elementos narrativos, questões estético-filosóficas a partir da arte dos sons e uma reinterpretação de Beethoven com uma música do futuro, que abre caminhos para práticas artísticas que demandam um maior engajamento do ouvinte.
Em todos estes textos há um suporte comum: o entrechoque de forças entre o projeto do jovem compositor-dramaturgo provinciano que se muda para a capital europeia de produção e circulação de Óperas em busca de oportunidades profissionais e a redefinição desse projeto em função dos obstáculos que lhe são impostos. Os textos orbitam em torno desse entrechoque, sendo, seguindo Wolfgang Iser, ficções exploratórias, explanatórias, que efetivam antecipações, simulações de eventos ou argumentações.
Nesse sentido, mesmo afastado de contextos materiais de produção de óperas, Wagner é capaz de se mover pela escritura em mapeamentos de referências e modelos para a elaboração de obras dramático-musicais.
O isolamento em Paris interrompe a continuidade multitarefa envolvida nas diversas funções de um compositor-dramaturgo para esta mesma continuidade e seus pressupostos sejam questionados, modificados.
Entretanto, é possível compreender esse deslocamento forçado para atividade de escritura e autoanálise como algo integrante do processo criativo wagneriano daqui em diante. Estar reduzido ao texto escrito deixa de ser uma solução provisória para uma situação premente.
Após Paris
Para vencer em Paris, Wagner não tinha muito em mãos. Na tabela abaixo são registradas informações que marcam os períodos e criações a partir do tempo decorrido na capital francesa:
Figura 2 – Produção artística e intelectual de Richard Wagner entre 1839 e 1858
Fonte: LADI-XXXX (2022)
Como se pode observar, Wagner não conseguiu levar para nenhum dos teatros parisienses algumas de suas obras. Ao lado da intensificação do trabalho intelectual das publicações em jornais, houve a aceleração da composição (libreto e orquestração) de ópera, para que fossem oferecidas e encenadas. Assim, nos dois anos e meio que reside em Paris, Wagner finaliza 1- os cinco atos da monumental Rienzi, forjada no estilo Grand opera, um drama heroico, com grandes cenas conjuntas em fins de ato, um ballet de quase meia hora, cenas de multidão, além dos tradicionais duos e árias; 2- os três atos de O Navio Fantasma, cuja orquestração foi completada em sete semanas[7].
Tais dados manifestam a simultaneidade entre incremento laboral da escrita literária e o menor intervalo para elaboração de libreto e música de uma ópera. Premido pela urgência, Wagner passa a criar mais e em menos tempo, ao mesmo tempo que mais se autoanalisa e explora intelectualmente conceitos e questões relacionadas à dramaturgia musical.
Compare-se tal conjuntura com o período subsequente da carreira de Wagner: com o sucesso das apresentações de Rienzi e O Navio Fantasma, os Wagner retornam à Alemanha, residindo em Dresden. Wagner é nomeado Kapellmeister e, usufruindo desta estabilidade financeira e social, compõe no dobro do tempo de Paris duas óperas, encenando apenas uma, envolvendo-se em publicar mais textos de reorganização do teatro e iniciando sua pesquisa sobre o mito dos Nibelungos.
No período seguinte, homólogo a sua ida a Paris, temos uma nova fuga dos Wagner, agora ao exílio em Zurique. Se em 1839 a motivação inicial foi escapar dos credores e entrar em contato com o centro capitalista da ópera, dez anos depois há outra ameaça: a participação de Wagner no levante revolucionário de Dresden. Como em Paris, Wagner, afastado de condições materiais de realização de óperas, debruça-se novamente na intensa composição e escritura ensaística. Em sua Uma comunicação para meus amigos, de 1851, ele associa os dois períodos, a partir de Zurique: “Assim me tornei novamente um escritor, como outrora em Paris, quando abandonei meus desejos de fama parisiense e me rebelei contra o formalismo do sistema artístico dominante (WAGNER, GSD 4, p. 406).”
Dessa forma, a pobreza e isolamento de Paris constituem-se um espaço-tempo específico em que se acoplam a complementariedade entre intensa elaboração de obras dramático-musicais e intensa produção de textos reflexivos. O Wagner artista desdobra-se no Wagner especulativo. Expor a si e aos outros suas ideias e decisões criativas convive com a composição de cenas e sons.
Conclusão
Ao redigir, em 1871, nota introdutória ao primeiro volume de suas obras completas, no qual são recolhidos textos da estadia em Paris, Wagner declara que a intensa perturbação na capital francesa, “Pariser Drang”, fez com que desdobrasse sua vida entre a composição e a escrita:
“E é essa “perturbação parisiense" que quis levar ao conhecimento dos meus amigos ao recolher o conteúdo deste volume, pois na verdade atribuo àquele período de minha vida minha primeira necessidade me dedicar à literatura (WAGNER, GSD,I, 1)”.
Seguindo a nota, Wagner registra que, paralelamente a essa demanda escritural, houve uma drástica alteração entre os estilos da dramaturgia musical de Rienzi e de O Navio Fantasma. De modo explícito, há uma conexão entre as publicações nos jornais e “seu desenvolvimento como dramaturgo musical, zu von welchem meine weitere Ausbildung zum musikalischen Dramatiker ihren Fortgang nahm”: segundo Wagner, o desvio do caminho de Rienzi foi em prol de “uma direção conscientemente mais séria, o leitor pode decifrar a partir dos contos e artigos que eu arranjei neste volume inicial (WAGNER, GSD,I, 3). ”
Com isso, o estressante período em Paris projeta a cooperação entre o dramaturgo, o dramaturgista e compositor, modus operandi fundamental para o mega projeto criativo do Anel.
Referências
ALLEN, Robert & SKELTON, Geoffrey (orgs.) Wagner writes from Paris: stories, essays, and articles by the young composer. Nova York : J. Day Co., 1973.
BRANDON, Ann. Minna and Richard Wagner in their flight from Riga. Dissertação de Mestrado, Dartmouth College. Master of Arts in Liberal Studies Program,1995.
BURK, John (org.). Letters of Richard Wagner. The Burrell Collection. Nova York: Vienna House, 1972.
CARDONI, Jean-François. La genèse du drame musical wagnérien, mythe,politique et histoire dans les œuvres de Richard Wagner entre 1830 et 1850. Paris: Peter Lang, 1998.
COLEMAN, Jeremy. Wagner in Paris. Translation, Identity, Modernity. Woodbridge: The Boydell Press, 2019.
ISER, Wolfgang. The Use of Fiction in Literary and Generative Anthropology: An Interview with Wolfgang Iser. Anthropoetics, v. 3. 21,1997.
KEITH-SMITH, Brian, A Germanic Hero Par Excellence? Richard Wagner in Paris". In: Graham Garget (ed). Heroism and Passion in Literature. Leiden, The Netherlands: Brill, p. 105-115, 2004.
Le HIR, Sabine. Wagner et Paris (1830-1839): une étape de apprentissage. Revue de Musicologie , 100. 2, p. 357-377, 2014.
NATTIEZ, Jean-Jacques. Wagner Androgyne. Princeton: Princeton University Press, 2014.
POTTINGER, Mark. Wagner in Exile: Paris, Halévy and the Queen. Nineteenth-Century Music Review, 12.2, p. 253-284, 2015.
ROSS, Alex. Wagnerism. Art and politics in the shadow of music. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.
VAZSONYI, Nicholas. Richard Wagner. Self-Promotion and the Making of a Brand. Nova York: Cambridge University Press, 2010.
WAGNER, Richard. Wagner, Richard. Gesammelte Schriften und Dichtungen. 10 vols. Leipzig: Fritzsch, 1871–1883. Doravante GSD.
WAGNER, Richard. Mein Leben. Munique: List, 1963.
WAGNER, Richard. Uma visita a Beethoven e outros escritos. Trad. Plinio Augusto Coelho. São Paulo: Intermezzo Editorial, 2016.
[1] Esta comunicação integra materiais desenvolvidos na pesquisa “Wagnerianas: Metodologia integrada de Dramaturgia, Orquestração e Mediação Tecnológica a partir das propostas de Richard Wagner e sua recepção da ideia de Coro do Teatro Grego Antigo”, financiada pelo Edital CNPq/MCTI/FNDCT Nº 18/2021.
[2] WAGNER, 1963, p. 270-539 e as cartas em BURK, 1972, p. 85-96, reunidas sob o título “ Provação (ordeal) em Paris” e as cartas em SPENCER & MILLINGTON,1988, p. 49-154, com o título “ Indigência em Paris”. V. ainda BRANDON, 1995; KEITH-SMITH, 2004. Alex Ross chega a afirmar que “Por dois anos e meio, Wagner encontrou trabalho como arranjador e jornalista, mas sua música recebeu pouca atenção e sua descontrole financeiro quase o levou à prisão por dívidas. Desde então, ele viu essa experiência como provação no qual seu “eu” maduro foi forjado (ROSS, 2000, p. 82).
[3] V. CARDONI, 1998.
[4] Conf. Le HIR, 2014.
[5] Como COLEMAN,2019 também aduz.
[6] Para o catálogo de textos publicados por Wagner, seguimos NATTIEZ, 2014, p. 304- 322. Alguns dos textos do período parisiense foram traduzidos em WAGNER, 2016. Em todo caso, sigo a edição das obras completas WAGNER, 1911–1916 (WAGNER GSD).
[7] WAGNER, 1963, p. 251.
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