Beethoven, 1870
Em 1870, Wagner escreve este longo ensaio, em meio à guerra franco-prussiana, seu casamento com Cosima e os trabalhos de composição do fim do Anel.
Sigo aqui a tradução de Anna Hartmann Cavalcanti.( Zahar, 2010).
Entre o impacto de suas leituras de Schopenhauer, que o levam a considerar o objetivo da obra em "guiar o leitor através de um exame aprofundado da essência da música, bem como oferecer à reflexão das pessoas verdadeiramente cultas um contribuição sobre a filosofia da música", Wagner recoloca a questão teatralidade e das artes em contato por meio do exame do "Caso Beethoven".
O ponto de partida é a defesa da atividade criadora musical como uma fenomenogia de processos psicofísicos : "Assim, através da disposição rítmica de seus sons, o músico entra em contato com o mundo plástico intuitivo em virtude precisamente de semelhança das leis segundo as quais o movimento de corpos visíveis se manifesta de modo inteligível à nossa intuição"p.30. Dentro da dicotomia interno/externo, "a música exerce de modo imediato , ao desviar o intelecto da apreensão das coisas exteriores e ao privar-nos “como forma pura, liberta de toda objetividade, do mundo exterior, permitindo-nos olhar no interior de nós mesmos como na essência íntima de todas as coisas.” p.33.
Nessa perspectiva, Beethoven seria este músico-fenomenólogo, "“Mas penetrar de tal modo, através dessas formas, na essência mais íntima da música, e, a partir dessa perspectiva, ser capaz de conduzir a luz interior da clarividência de novo para fora, a fim de nos revelar a significação mais íntima dessas formas, tal foi a obra de nosso grande Beethoven, que devemos por conseguinte considerar como o verdadeiro ápice da música.”(34)
Entre outros fatos, Wagner comenta que "“ Pois agora o mundo exterior desaparecera completamente para ele, não porque uma cegueira tivesse lhe roubado o espetáculo, mas porque a surdez afastara, enfim, o mundo de seu ouvido. O ouvido era o único órgão através do qual o mundo ainda o alcançava e perturbava: para seus olhos o mundo estava morto há muito tempo.” 52 Com isso, " “Agora aumenta essa força que dá forma ao insondável, ao nunca visto, ao nunca experimentado, convertendo-os na experiência mais imediata, da mais clara inteligibilidade.” 54
Ao compor a Sinfonia n.9 que engloba música coral e música experimental tal fenomenologia traduz-se em um intercampo artístico: "“Sempre foi um motivo de escândalo não apenas para os críticos, mas para o sentimento ingênuo ver “subitamente o mestre deixar, por assim dizer, o domínio da música, como se saísse do círculo mágico por ele mesmo criado, para recorrer a uma faculdade de representação completamente diversa da concepção musical.”65
Nessa tensão entre música vocal e música instrumental, "“Beethoven alcançou esse enobrecimento da melodia: a significação nova que hoje a música vocal adquire em suas relações com a música instrumental pura.”68
A orquestra que era "empregada apenas como reforço ou acompanhamento das vozes do cântico" acaba por ampliar suas possibilidades: "“Estava reservado ao gênio de Beethoven tratar o complexo artístico que se formava a partir dessa mistura unicamente no sentido de uma orquestra com possibilidades intensificadas. ” 68-69.
A abertura das possibilidades da orquestra se manifesta na ópera: "“na ópera, além da música, o que prende a atenção é a ação cênica e não o pensamento poético que a explica; que em particular a ópera dirige para si, alternadamente, o escutar algo ou olhar para.”71
Vem este longo parágrafo que aproxima drama e música: "“A música, que não representa as ideias contidas no mundo dos fenômenos, mas, ao contrário, é ela mesma uma ideia do mundo, e uma ideia da maior amplitude, compreende naturalmente em si o drama, enquanto esse, por sua vez, expressa a única ideia do mundo adequada à música. O drama ultrapassa os limites da arte poética do mesmo modo que a música ultrapassa os limites de todas as demais artes, particularmente os das artes plásticas, “pelo fato de seu efeito residir unicamente no domínio do sublime. Assim como o drama não descreve os caracteres humanos, mas faz com que eles se representem a si mesmos, diretamente, também a música nos apresenta em seus motivos o caráter de todos os fenômenos do mundo segundo seu em si, seu núcleo mais íntimo. O movimento, formação e transformação desses motivos não são apenas aparentados e análogos ao drama, mas o próprio drama e a ideia nele contida só podem ser compreendidos com perfeita clareza por meio daqueles motivos da música que se movimentam, se formam e se transformam. Não estaremos, pois, errados, se reconhecermos na música o que torna o homem a priori capaz de dar forma ao drama em geral. Assim como construímos o mundo dos fenômenos através do emprego das leis do espaço e do tempo, prefiguradas de modo a priori em nosso cérebro, assim essa representação consciente da ideia do mundo no drama seria, por sua vez, prefigurada nas leis internas da música, leis estas que se impõem tão inconscientemente ao dramaturgo quanto as leis da “causalidade para a apercepção do mundo dos fenômenos.” 73-74
Essa convergência entre composição musical e dramaturgia é reforçada pela aproximação entre Beethoven e Shakespeare. " “Se tomarmos a impressão de conjunto produzida pelo mundo complexo das figuras shakespeareanas sobre nossa mais íntima sensação – com toda a extraordinária precisão de caracteres que ele contém e que nele se movimentam – e o compararmos ao conjunto semelhante de motivos beethovenianos em seu poder irresistível de penetração e precisão, veremos que cada um desses mundos coincide completamente com o outro, de modo que, embora pareçam mover-se em esferas absolutamente diferentes, um está contido no outro.” 74-75. Assim, “identidade dos dramas shakespearianos e beethovenianos, admitir que tais dramas estão para a ópera como uma peça de Shakespeare está para um drama literário e uma sinfonia de Beethoven para a música de ópera." 81
Enfim, voltando ao exemplo da Sinfonia 9: "“O fato de Beethoven, em sua Sinfonia n.9, ter simplesmente voltado à forma da cantata coral com orquestra não deve nos induzir em erro ao avaliar o notável salto da música instrumental para a música vocal; já avaliamos, anteriormente, a significação dessa parte coral da sinfonia e reconhecemos que ela pertence ao terreno mais próprio da música: além do enobrecimento da melodia, ao qual havíamos nos referido, não há nada, quanto ao aspecto formal, que possa nos surpreender. É uma cantata com palavras, com a qual a música se relaciona da mesma forma que com qualquer outro texto cantado. Sabemos que não são os versos de um poeta, seja ele Goethe ou Schiller, que determinam a música: somente o drama possui tal poder – não o poema dramático, mas o drama que se movimenta realmente diante de nossos olhos, como a imagem correspondente e visível da música, no qual a palavra e o discurso pertencem somente à ação e não mais ao pensamento poético.” 81.
Trecho de: Richard Wagner. “Beethoven”.
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